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Um centavo

Publicado: 06/01/2018 por Kakao Braga em Atualidades, Psicologia & Comportamento
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moeda de 1 centavo 1Quarta-feira, entrei num mini mercado e comprei um achocolatado. O preço? R$ 1,94. Ri alto sem querer. Sempre que a gente sai para as compras se depara com um valor quebrado. Quem paga com cartão não percebe a diferença, mas se a opção recair pelo dinheiro a situação muda. Um produto que na vitrine tem o valor de 49,99, ao se pagar com um nota de 50 reais dificilmente se recebe troco. Antigamente, os comerciantes ofereciam as famigeradas balas, chicletes e pirulitos. Hoje, nem isso.

Pelo sim, pelo não, o arredondamento do valor tornou-se prática comum e incorporou-se ao nosso dia-a-dia. As pessoas se acostumaram, afinal é um valor tão pequeno. Praticamente uma bobagem. Afinal, o que é um centavo ou dois? Não dá pra comprar nada, eu sei. Mas mesmo assim parei para pensar. O problema com as moedas de baixo valor não são exclusivas do Brasil. Quando voltei da Espanha, na última viagem, além das lembrancinhas, trouxe em meu porta níquel duas moedinhas de um centavo de Euro, que não gastei porque lá nem dava pra comprar nada, mas que guardei como uma linda recordação.

Há alguns anos, nos Estados Unidos foi lançada uma campanha para tirar as moedinhas de circulação. Não sei que fim levou. Quando estive na Tailândia, nas lojas da Seven Eleven, ao invés de moedinhas recebia selinhos, que após a viagem foram parar no lixo. Pelo que fiquei sabendo, na Europa do Euro, as moedas de um e dois centavos foram introduzidas para garantir que os varejistas quando da entrada na Comunidade Europeia não iriam arredondar os preços. Mas por questão de tempo, custo operacional e real valor das pequenas moedas da cor cobre, alguns países como Bélgica, Irlanda, Finlândia e Holanda deixaram de produzi-las ou só as fabricam em edições cunhadas especialmente para colecionadores. Ou seja, os comerciantes de lá tiveram que se adaptar a essa realidade.

No Brasil, o Banco Central deixou de fabricar as moedas de um centavo em 2004, porque o valor do metal subiu e custava 0,25 centavos para produzir cada uma delas, uma situação inviável e sem sentido. Contudo isso não explica onde estão as 3,9 milhões de moedas que diz a lenda deviam ainda estar circulando por aí. Enfim, pequeninas do jeito que são devem estar escondidas em algum fundo de armário ou foram para o mundo alternativo junto com as canetas Bic e os guarda-chuvas perdidos.

Sei que fixar o preço em valores quebrados é uma estratégia de marketing para que os descontos pareçam mais vantajosos e a dor de gastar diminua. Contudo, será certo? Ainda mais se pensarmos que estamos num país onde não se pretende e não há moedas disponíveis para o troco correto. O que acontece na pratica é que o comerciante arredonda para cima ou para baixa quando lhe é conveniente, o que soa desonesto e propaganda enganosa. Segundo o Código de Defesa do Consumidor, eu estou cada vez mais craque nele, mesmo porque estou me tornando uma visitante contumaz dos PROCON, essa pratica é proibida, pois caracteriza um aumento de preço sem justa causa.

De centavo em centavo de uma compra aqui e outra ali quanto perdemos no final de um mês ou de um ano? Não sei. Nem me atrevo a fazer a conta. Mas o advogado Vitor Guglinski, que não é amigo meu, mesmo porque é de Juiz de Fora, fez e apresentou um cálculo bem interessante. Numa loja de um movimento médio de 10 mil consumidores por mês, se o consumidor for ao mercado todos os dias da semana e ficarem lhe devendo um centavo por dia, ao final de uma semana serão 7 centavos, de um mês, 28 centavos e de um ano, 3,36 reais. Pouco, né? Sim. Mas multiplique isso pelo número médio que consumidores: 10 mil, aí o número fica bem mais atraente para o dono do mercado. Ao final de um ano, a soma será de 33.600 reais. Um dinheiro livre de imposto, pois na Nota Fiscal, quando emitida, aparecerá que o troco foi dado corretamente. Algum espertinho dirá, mas a loja também arredonda para baixo os valores abaixo de cinco centavos. Oras, alguém tem a ilusão de que num país como o Brasil, isso já não foi pensado e previsto e está embutido no valor do produto ou serviço?

O fato é que a situação está cada vez mais desesperadora que não se trata mais de centavos. Outro dia, um prestador de serviço foi a minha casa para consertar a fechadura elétrica. Como não precisou trocar peça, cobrou apenas a visita, 90 reais. Ao lhe dar uma nota de 100, ele simplesmente não tinha troco, não aceitasse cartão, por não ter a maquininha, e nem cheque. Fui obrigada a deixar os 10 reais como um crédito para ser descontado da próxima vez que ele viesse fazer o serviço em casa. O caso é e se eu não precisasse mais chama-lo? Se ele se mudasse para Marte? Difícil isso, né?

Enfim, quando eu ri alto no caixa do mercado por conta do 1 real e 94 centavos do achocolatado, a caixa, curiosa, perguntou:

— O quê? Tá barato ou caro?

— Não é isso. É que você não vai ter os seis centavos. Vai me dar cinco de troco.

— Tenho sim — ela vasculhou um ponto escondido atrás do balcão e me deu o troco exato — Nós sempre temos um centavo para dar de troco se o cliente faz questão.

Senti que ela falou num tom de censura, mas não me incomodei. Peguei as moedinhas. Não porque fazia questão, mas por curiosidade. Há muito tempo não via tal moeda. Nem lembro quando foi a última vez que tive a emoção de tocar nessa peça de metal. Enfim, acho que esse exemplar irá ficar guardado em minha carteira como recordação e irá para o mundo alternativa das moedas sumidas de um centavo.

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