O cérebro também precisa de exercício

Publicado: 31/08/2012 por Kakao Braga em Atualidades, Psicologia & Comportamento, Saúde

:: Por Paulo Ricardo Mubarack ::

Artigo publicado no “livraria cultura NEWS” – n.º 76 – 1999.

“É uma questão de demanda: se você usa os neurônios, eles são mantidos; se não usa, eles simplesmente se perdem”, constata Gilberto Xavier, pesquisador e professor da USP, que fez doutorado em psicologia no Brasil, pós-doutorado na Inglaterra e na Dinamarca e, há vários anos estuda a relação entre o funcionamento cerebral e os tipos de memória. Ele explica que o cérebro é uma estrutura flexível e dinâmica, composta de bilhões de neurônios. Cada um desses neurônios recebe projeções de outros 10 mil e se projeta para mais 10 mil aproximadamente, o que resulta num número infinito de arranjos possíveis. É nessa rede de interconexões, formada em função da história de vida e dos estímulos recebidos, que se estabelecem as bases da personalidade de cada indivíduo – sua forma de pensar, de sentir e de encarar o mundo.

“Constantemente nascem e morrem células do nosso cérebro”, ele esclarece. “Quando o ser humano é concebido, a quantidade de neurônios cresce brutalmente até cerca de dois anos de idade. A partir daí começa a ocorrer um processo natural de perda celular. O mais importante, no entanto, é que o cérebro continua sendo capaz de criar novas conexões entre suas células no decorrer de toda a vida. E isso ocorre com mais intensidade se o indivíduo se mantiver intelectualmente ativo. O contato com atividades culturais – como leituras, arte, música, cursos e palestras – e a disposição de tentar resolver problemas ajudam a manter a estrutura cerebral em movimento, formando e reformando conexões”.

Estar levemente estressado é bom, pois ativa a circulação e desperta a atenção.

Quem já teve oportunidade de tirar férias por mais de um mês com certeza notou como é difícil retomar as atividades posteriormente. Segundo o psicobiólogo, isso mostra a rapidez com que são formadas e desfeitas as conexões neuronais. Ele observa inclusive que, quando se restringe a estimulação em alguma parte do cérebro por muito tempo, o resultado é uma perda de células naquela região, especialmente se o indivíduo for mais jovem. Ou seja, a interação do sistema nervoso com o ambiente é crucial para a manutenção dos neurônios.

Outra informação importante: a idade não interfere na perda de memória. Gilberto Xavier explica que, quando as pessoas idosas perdem sua capacidade de memória e de atenção, o fato em geral decorre de problemas no sistema circulatório, como arteriosclerose, ou de algum tipo de doença neurológica. “O cérebro absorve 20% de toda a energia que a pessoa consome”, resalta. “Essa energia vem do sangue. Se o sistema circulatório não estiver funcionando adequadamente, o cérebro não receberá a glicose e o oxigênio de que necessita e começará a apresentar deficiências.”

Hábitos saudáveis, como atividades físicas e dieta balanceada, são fundamentais para o bom desempenho dos neurônios. “Corpo são, mente sã”, lembra o professor. “Manter-se fisicamente ativo contribui para o funcionamento do sistema circulatório e a irrigação do cérebro. Além disso, quem pratica exercícios regularmente diminui o nível de ansiedade e adquire maior resistência ao stress, graças à liberação de substâncias como a beta endorfina, que é um neurotransmissor poderoso. É essencial ainda que a pessoa tenha uma alimentação rica em proteínas, vitaminas e carboidratos, elementos indispensáveis à manutenção do sistema nervoso.”

Gilberto Xavier observa, finalmente, que o otimismo constitui um fator básico em todo esse processo cerebral: “Está provado pela neuroimunologia que o próprio desejo de viver e de extrair ao máximo o que a vida pode oferecer, assim como a autoestima e a autoconfiança – a pessoa se ver de uma forma positiva e acreditar em si mesma — fortalecem o sistema imunológico, aumentando a resistência não apenas a doenças fisiológicas, mas também a problemas neurológicos”.

O ócio é algo terrível e liquida empresas, relacionamentos e cérebros. Se não ficarem atentos, vão ficar com a cabeça fraca, destreinada, ociosa, pouco esperta. A ausência de desafios prejudica mentalmente. Não permita que isto aconteça com você . Desafie-se constantemente e não tenha receio de encher-se de trabalho. O cérebro, o caixa e a humanidade agradecem.

:: Paulo Ricardo Mubarack é presidente da Mubarack Consulting & Business School.

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