Consumista, eu?

Publicado: 04/05/2012 por Elisa em Atualidades, Opinião, Psicologia & Comportamento

:: Por Gisele Friso Gaspar::

Dia desses lia um texto sobre o consumo e suas consequências na sociedade. Em determinado trecho me deparei com a seguinte definição: consumista – alguém que consome os produtos que compra até que eles não tenham mais utilidade, ou seja, até o seu desgaste completo. Parei para refletir. A definição que se tem para “consumista” é: pessoa que compra indiscriminadamente, sem necessidade ou consciência. Alguns dizem ser algo compulsivo. Entretanto, percebi a dimensão da definição que li na matéria sobre o consumo.

De fato, se pararmos para pensar, hoje a sociedade é consumista (no sentido tradicional) ao extremo. Desde a implantação de produção, o que se deu com maior velocidade a partir da Segunda Guerra Mundial, o consumo passou a ser massificado. O que era produzido em pequena escala e artesanalmente passou a ser produzido em larga escala para dar conta da demanda que o mercado impunha. Os produtos tornaram-se mais acessíveis e a tecnologia proporcionou a possibilidade de maior lucro com menor investimento. E isso é positivo, pois gera crescimento e desenvolvimento.

Entretanto, podemos perceber que cada vez mais os produtos padecem do mal da falta de qualidade. Eles hoje são feitos para não durar. Alguns fabricantes chegam a soldar peças e componentes em seus produtos para que se tornem substituíveis quando ocorrer um problema, levando à condenação do produto e à necessidade de aquisição de um novo. Pura leviandade, sendo prática ilegal, antiética e condenável. Outros fabricantes, ainda que prezem pela qualidade de seus produtos, os produzem em série e com a mesma tecnologia utilizada pelo mercado em geral, com a política da “razoável vida útil” cada vez menor.

Por outro lado, a velocidade com que a tecnologia se desenvolve traz como consequência cada vez mais novidades no mercado de consumo, lançadas todos os dias em quase todos os segmentos. A publicidade, por sua vez – e cumprindo o seu papel, diga-se –, gera no consumidor a “necessidade” de ter aquele produto, aquele lançamento. Uma necessidade quase visceral, como se aquele consumidor não fosse mais poder viver nesse mundo sem aquele produto. Isso é mais evidente ainda em relação aos adolescentes.

Consequentemente, toneladas de lixo eletrônico são despejadas, sem controle, em nosso pobre e sofrido planeta. As políticas de coleta de lixo eletrônico e campanhas de consumo consciente vêm sendo desenvolvidas, é fato. Porém, a velocidade com que isso ocorre é desproporcional. A corrida é desleal. O consumidor não é orientado ou educado para esse tipo de descarte. As empresas pecam pela falta de divulgação. O Poder Público peca pela falta de fiscalização. Mas o consumo continua e a demanda por novidades eletrônicas é cada vez maior. Não raro, encontramos portadores de aparelhos de telefone celular com aparelhos “antigos” que se conta às dúzias em suas casas. Se questionados sobre o porque da troca, a resposta possivelmente será “eu precisava de um modelo mais moderno, com um sistema operacional mais avançado e com uma câmera fotográfica de alta definição”.

Mas, voltando à definição de “consumista”, aí vai uma reflexão: que tipo de consumista você é? É daqueles que não pode ver uma liquidação? Daqueles que não perde uma novidade eletrônica? Que não vive sem o último modelo de computador? Ou você é aquele que consome os produtos que adquire até o fim, até o seu desgaste? É claro, há o meio-termo. Porém, se for para escolher que tipo de consumista quero ser, prefiro o segundo.

Mesmo passando por momentos de deslumbre total diante de uma novidade tecnológica, a pergunta que hoje me faço é: eu realmente preciso disso? Se eu responder sim com uma justificativa plausível, a compra está aprovada. Do contrário, penso um pouco mais e, na maior parte das vezes acabo desistindo. É claro que há momentos de fraqueza. E, fazendo mea culpa, é óbvio que eu também já tive uns dois pares de aparelhos celulares “antigos” e “imprestáveis” atolando as gavetas, que foram substituídos pela última novidade do mercado. Porém, como decidi ser consumista – no melhor sentido –, decidi refletir sobre as minhas escolhas. Isso também faz parte do consumo consciente, sendo nossa obrigação como consumidores. Então, sejamos consumistas!

::  Gisele Friso Gaspar é advogada e consultora jurídica, especializada em Direito do Consumidor e Direito Eletrônico

 

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