A Dança e o Movimento da Vida

Publicado: 26/03/2012 por Elisa em Arte & Cultura, Atualidades

:: Por Angelita Corrêa Scárdua ::

Provavelmente a Dança foi a primeira forma de expressão artística desenvolvida pelos humanos, nossa primeira tentativa estética de recriar e compreender o fluxo da vida. Talvez por esse mesmo motivo a Dança seja uma forma de Arte que historicamente se liga ao Sagrado, em especial nas culturas primitivas. Como todas as coisas que faziam parte da vida eram tidas como Sagradas – sendo pertencentes a mesma fonte geradora, ao mesmo útero (a Terra) de onde todos vínhamos e para onde todos retornaríamos – dançar era mais do que entretenimento, dançar era ritual de iniciação, no sentido de que colocava o humano em contato com o divino, com o fluxo da vida no universo.

Podemos pensar que as primeiras danças nasceram da “imitação” dos movimentos dos animais, vegetais e elementos. Ou seja, a inspiração para a criação das primeiras danças era o mundo que circundava nossos ancestrais e que constituía o cenário de suas vidas. Sendo assim a Dança em seu caráter original constitui-se numa maneira de tentar explicar a nossa própria existência em suas diferentes dimensões. E assim a experiência de dançar teria contribuído para que nossos antepassados conferissem às situações vividas valores distintos, em função basicamente das sensações e sentimentos desencadeados por cada um dos eventos que eram experienciados. Do ponto de vista psicológico, um dos recursos simbólicos que utilizamos para assimilar uma experiência e dar-lhe significado é a “Metáfora Espacial”.

A “Metáfora Espacial” implica na distribuição dos eventos no espaço geográfico, de forma que a função deste mesmo evento esteja associada a um determinado local/região do nosso campo de percepção visual e de nossa ação. Por exemplo, a Mandala em sua forma circular confere uma ênfase especial ao centro. O centro que representa o ponto de origem encerra a idéia de união, assim como de equilíbrio, já que todo o movimento circular gira em torno deste ponto central que se torna tanto o distribuidor quanto o catalisador do movimento. Encontraremos essa metáfora espacial da Mandala/Círculo em lugares tão diversos quanto no esquema cabalístico da criação, nos símbolos de Masculino e Feminino, ou na Dança do Ventre!

Além da Dança do Ventre, também encontraremos exemplos maravilhosos da presença arquetípica da Mandala como interpretação simbólica do movimento de origem (geração do universo), em outras formas do dançar como a Dança Indiana, a Dança dos Orixás e a Dança Balinesa. Na Dança do Ventre encontraremos a presença da Mandala (círculo) em movimentos como redondos, ondulações, “Árvore”, giros, “oitos” e outros. O “oito” é particularmente interessante quando analisamos o caráter mítico da Dança, pois simbolicamente este número está associado ao infinito porque ele não tem começo ou fim mas configura-se numa forma contínua e ininterrupta. Esse significado simbólico do oito o liga ao Arquétipo do Self, que segundo o psicólogo suiço Carl Jung expressa a totalidade, o universo, a plenitude, a comunhão da consciência com o inconsciente, o encontro do humano com o divino.

Num tempo em que a vida era percebida como fluxo e não como caminho, ou seja em tempos ancestrais quando nossos antepassados mais remotos entendiam a vida como sendo um processo contínuo de nascimento-morte-renascimento cuja origem circunscrevia-se à Terra e tudo ligava-se à mesma fonte, a vida era simbolizada espacialmente pelo círculo. O Mitólogo e Historiador das Religiões romeno Mircea Elíade, aponta para o fato de que nos grupos humanos mais antigos que viveram numa época pré-civilização, a Serpente era um poderoso símbolo divino ligado ao feminino e a vida, muito disso se devia ao caráter único da serpente de trocar de pele, “morrer e renascer”, o que graficamente era representado pela serpente engolindo o próprio rabo, um círculo!

Posteriormente a “descoberta” do estudo dos Astros pela humanidade – seja para orientação espacial ou propósitos divinatórios e religiosos – contribui de maneira significativa para a construção do conceito de um mundo exterior à Terra, um “outro” mundo centrado nas estrelas, um mundo “celestial”. Sendo assim, a terra passou a ser vista como parte de um universo maior. Para essa vida “maior” que se posicionava entre dois mundos distintos o símbolo mais adequado deveria ser aquele que revelasse a união entre os mundos – o terreno e o celestial. Essa busca de uma referência simbólica para os dois mundos da vida humana culminou na representação gráfica dos círculos que interagem, se unem e se perpetuam num único movimento, o 8!

Mesmo assim a Serpente continuou sendo vista como Sagrada, mas agora ela se ligará fundamentalmente às divindades da Terra, às figuras tectônicas dos mundos subterrâneos. Por outro lado, os pássaros, Astros e fenômenos celestes passarão com maior ênfase a representar as divindades dos mundos “superiores”. Na Mitologia podemos ver isso em Hórus, Odim, Zeus (simbolizados pelo falcão, Corvo e Águia), Rá, Apolo e Thor (simbolizados pelo Disco Solar, Sol e Raio). Em contraponto as Divindades mais primitivas como Uazidt (a deusa serpente do Nilo) e Ereskigal (a deusa sumeriana dos “Infernos”) permanecem sendo simbolizadas pela cobra e sanguessugas! Mas é válido ressaltar que a Lua, primitivamente associada ao círculo e a serpente persistirá como símbolo de divindades femininas e em muitos casos daquelas que habitam os mundos “inferiores”.  Dessa forma podemos ver que a “Metáfora Espacial” revela a força que as dimensões do espaço possuem em nossa interpretação do mundo, assim como pode nos ajudar a entender suas conotações simbólicas mais profundas.

Ás representações gráficas espaciais “círculo” e “quadrado” estão associados os conceitos de movimento e parado. Em diferentes línguas usa-se expressões similares às portuguesas “de vento em popa”, “atoleiro”, “pessoa quadrada”, “circulando”, etc. Na Mitologia, nos Contos de fadas, nas Religiões, assim como nas expressões do dia-a-dia, encontraremos imagens que reportam ao espaço geográfico demarcado pelo círculo como sendo símbolo de vida, que é o caso das fontes, dos lagos, da lua cheia, da rosa, etc. Mesmo em situações ambíguas como a Da Roca de fiar do conto da Bela Adormecida, o adormecer da jovem assinala seu ingresso no mundo feminino adulto marcado por sua capacidade de despertar o amor, casar-se e potencialmente gerar uma nova vida! Da mesma forma, castelos, celas, grades, tabuleiros de xadrez, etc., são figuras simbólicas clássicas de impasse, desafio, estagnação, etc., numa clara demonstração de que nossa representação do espaço geográfico e seus símbolos gráficos (o círculo, a reta, o quadrado) estão profundamente “contaminadas” das experiências arquetípicas que constituem nosso inconsciente coletivo.

Todas essas experiências que (re)constroem pela metáfora espacial nosso lugar no universo são encontradas na Dança, uma forma de Arte profundamente vinculada ao Imaginário humano mais antigo, seja por seu caráter mítico e ancestral ou por sua generosidade sensorial. Ao dançar exercitamos todos os nossos sentidos de uma só vez usando nosso referencial sensório (tato, audição, visão, paladar e olfato) para situar nosso corpo no espaço-tempo. Através da Dança delimitamos e expandimos nossas fronteiras do existir com o nosso próprio movimento, ocupamos e recriamos nosso espaço no mundo e nos sincronizamos com o ritmo do tempo, não tentando vencê-lo a todo custo mas deixando-nos guiar pelo compasso da música, esse veículo de transe que nos leva a compartilhar com os antigos deuses de nossos antepassados a (re)criação da vida… Afinal, dançar é movimento, e movimento é vida!

:: Angelita Corrêa Scárdua é Psicóloga, Mestre em Psicologia Social pela USP de São Paulo e Professora Universitária.

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