A ciência e a Estrela de Belém

Publicado: 12/12/2011 por Kakao Braga em Atualidades, História

:: Por Von Bernward Loheide ::

Os Três Reis Magos viram há mais de 2000 anos uma estrela que os guiou até Belém. Ali chegados, encontraram o Menino Jesus na manjedoura de um estábulo, ao lado de um boi e de um jumento. Assim o diz a Bíblia, e é nisso que muitas pessoas acreditam. No entanto, quem ler atentamente o segundo capítulo do Evangelho de São Mateus fica admirado. Não há reis, nem três pessoas, nem estábulo, nem manjedoura, nem boi, nem jumento. Em vez disso, há um indefinido número de «Homens Sábios do Oriente» que vieram à «casa» onde Jesus nasceu.

A maior parte da história foi tecida ao longo dos séculos pegando na narrativa de Natal do Evangelho de São Lucas e enfeitada com motivos de devoção popular. Mas a estrela, essa, vem mesmo mencionada no Evangelho de São Mateus. E não foram poucos os teólogos, além dos inúmeros astrônomos, a interrogar-se: que tipo de estrela foi esta que anunciou o nascimento do Messias? Será que isto pode ser provado cientificamente?

JOHANNES KEPLER (1571-1630) pensava que sim. Em 1604, o astrônomo alemão teve a rara sorte de testemunhar aquilo que se chama uma supernova, ou seja, a explosão de uma estrela quando morre.

Quando uma determinada estrela está mais perto do fim, mais ferro recolhe no seu núcleo. Nessa altura, e numa fração de segundo, o núcleo de ferro sucumbe ao seu próprio peso. A estrela rebenta em pedaços e a sua matéria espalha-se pelo Cosmo numa grandiosa explosão.

Do pó viemos, ao pó voltaremos. Seria a morte de uma estrela o sinal do nascimento do Salvador? Os astrônomos da atualidade perderam a fé nesta crença, porque cada supernova deixa marcas que são visíveis muitos séculos depois (manchas estelares, por exemplo). No entanto, no caso do período histórico em questão, ainda não foram encontrados indícios celestes.

Uma segunda teoria sobre a Estrela do Natal tem uma maior base de sustentação. Também data do tempo de Kepler. De acordo com os seus cálculos, ocorreu uma impressionante conjunção de Júpiter e Saturno no ano 7 a.C. Isso significa que estes dois planetas, vistos da Terra, pareceram quase tocar-se, não apenas uma, mas três vezes, numa questão de meses. Tudo parecia conjugar-se, pois Júpiter (Zeus para os Gregos e Marduk para os babilônios) era visto como a estrela dos reis, e Saturno, como o planeta de Sabbath e dos Judeus. Que outra coisa poderia querer dizer tudo isto senão o nascimento de um rei e deus dos Judeus?

O que Kepler calculou tinham os astrônomos babilônios visto com os seus próprios olhos há alguns 20 séculos, tendo gravado tudo em tábuas nos seus caracteres cuneiformes. Também os astrônomos atuais, como, por exemplo, o austríaco Konradin Ferrari d’Occhieppo, confirmaram esta invulgar conjunção de planetas naquela época. Para o Prof. Hans-Ulrich Keller, do Planetário de Estugarda, este encontro de dois corpos celestes é «a resposta mais coerente à questão da Estrela de Belém».

No entanto, há aqui uma ponta solta. Júpiter e Saturno nunca se fundiram numa única estrela. Mesmo a olho nu, seriam sempre visíveis dois corpos. É pouco provável que São Mateus se tenha esquecido de mencionar isto.

Há ainda uma terceira interpretação: a dos artistas. Em muitas pinturas e retratos da manjedoura, a Estrela de Belém está representada como se fosse um cometa com cauda. Já era assim no caso do fresco Adoração dos Reis Magos, do pintor italiano Giotto di Bondone (1266-1337). Ele vira o famoso cometa de Halley quando este se aproximou da Terra em 1301, com a sua longa cauda a riscar os céus. Ficou tão impressionado com esta visão que a trabalhou no seu fresco na Capela de Arena, em Pádua.

Alguns astrônomos da atualidade estabeleceram que o cometa de Halley também apareceu nos céus no ano 12 a.C.

Tanto pior para a Estrela de Natal, que veio cedo demais, mesmo quando temos conhecimento de que os nossos cálculos do tempo desde o nascimento de Cristo não são rigorosamente exatos. Dionysius Exiguus, um monge que vivia em Roma, falhou um «bocadinho» as contas no século VI, quando fixou o nascimento de Jesus como sendo o princípio do novo cálculo dos anos. Jesus não nasceu no ano 0 (este ano nunca existiu na realidade) nem no ano 1, mas sim entre os anos 4 e 7, antes de começar o nosso calendário. Como é que ele podia ter vindo ao Mundo no reinado do rei Herodes – um acontecimento que a Bíblia certifica várias vezes – se Herodes morreu no ano 4 a.C.?

O COMETA DE HALLEY sai de cena, mas entra outro. Segundo uma velha crônica chinesa, entre os anos 7 e 4 a. C., foi visível na China um cometa na constelação de Capricórnio durante mais de 70 dias. A questão que se coloca aqui é saber por que razão é que apenas os Reis Magos, e não Herodes e os seus astrólogos em Israel, viram este cometa.

Os cépticos desta teoria, como é o caso do astrônomo de Berlim Prof. Dieter B. Herrmann, refugiam-se na astrologia para argumentar contra esta candidata a Estrela de Natal: «Os especialistas em astrologia consideram que os cometas não são propriamente o corpo celestial apropriado para anunciar o jubiloso acontecimento do nascimento de um Redentor. Os cometas têm sido, desde o princípio dos tempos, arautos de notícias terríveis, associadas a mortes, guerras, fome e pragas.»

Não será um argumento muito forte, pensarão alguns, porque os autores bíblicos não consideravam a astrologia pagã uma autoridade convincente. Pelo contrário, o Novo e o Velho Testamento anunciam em muitos sítios a batalha contra a veneração dos poderes celestiais cósmicos em nome de Jeová, deus da Criação. Para os judeus e cristãos, os velhos poderes da Natureza foram reduzidos. As montanhas, os rios, os mares, o Sol e as estrelas já não são deuses. São a criação de Deus, no que diz respeito ao seu poder.

ESSA É A RAZÃO pela qual também São Mateus percebeu a Estrela de Natal como um sinal que está ao serviço da grandeza e do amor de Deus. A estrela conduziu os homens sábios a Belém. Isso significa que o verdadeiro rei de Israel não era Herodes, o rei que reinava em Jerusalém, mas sim o Menino Jesus de Belém que, na realidade, era rei de todo o Mundo. Os próprios céus estavam subordinados a esta criança. Todo o Universo encontrou a sua redenção nele. Este é o significado simbólico da estrela na história de Natal, um significado independente da questão que se coloca, se havia ou não, na realidade, um cometa que podia ver-se naquela altura em Belém.

Mas os teólogos têm mais coisas para dizer. Eles dizem que São Mateus só escreveu o Evangelho meio século depois da morte de Jesus, numa altura em que os Cristãos se afastavam cada vez mais das comunidades judaicas, das quais tinham emergido. Os autores do Novo Testamento estavam sob pressão, pois tinham de explicar duas coisas: por um lado, tinham de mostrar que Jesus era o Messias dos Judeus pressagiado no Velho Testamento e, por outro, que ele também era o Redentor dos Pagãos. Pois o cristianismo apoderou-se, rapidamente e primeiro que tudo, dos «pagãos» que viviam à volta do Mediterrâneo. Nas suas missões de sucesso, o apóstolo Paulo esclareceu os pagãos que não era preciso ser judeu para se tornar cristão.

Que Jesus veio ao Mundo também pelos pagãos foi uma coisa que São Mateus esclareceu na história dos Reis Magos do Oriente. De uma perspectiva judaica, estes sábios orientais eram completamente pagãos. No entanto, reconheceram o seu senhor e rei no bebé Jesus, levando a mensagem de Natal de volta para a sua terra de origem, ou seja, para os confins do mundo conhecido.

A estrela foi um instrumento deste acontecimento. Simbolizou o domínio de Deus e ao mesmo tempo realizou a profecia do Velho Testamento no Livro dos Números (24:17): «De Jacob virá uma Estrela e, em Israel, erguer-se-á um Ceptro.»

No entanto, a questão deverá permanecer em aberto, no caso da história dos Magos, os três reis do Oriente e a estrela que os guiou terem algum fundamento histórico. Na Antiguidade, havia muitas histórias sobre aparições celestiais no nascimento de figuras importantes.

É possível que São Mateus se servisse desta tradição. Contudo, também é possível que ele se baseasse na história oral das primeiras comunidades cristãs. Nesse caso, e ao longo dos anos, poderia ter passado um relato sobre uma peculiaridade astronômica no tempo do nascimento de Jesus.

Fonte: Selecções

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